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| Franceses se instalaram na Guanabara em 1555, mas diferenças religiosas enfraqueceram a empreitada |
Luiz Fabiano de Freitas Tavares
Onde estava, afinal, o testamento no qual o “Pai Adão” legara o mundo às
Coroas portuguesa e espanhola? Quem fez esta pergunta foi Francisco I
(1494-1547), rei da França, que desafiou o Tratado de Tordesilhas,
firmado em 1494 por Portugal e Espanha para assegurar o domínio ibérico
sobre as terras do Novo Mundo. O monarca respondeu ao Tratado com uma
provocação, declarando a política de mare liberum (em latim, “mar
livre”). Como resultado, navios de comerciantes franceses percorreram o
litoral brasileiro em meados do século XVI, criando bases de comércio ao
longo da costa. Uma delas deu origem à colônia França Antártica, em
1555, situada na Baía de Guanabara, e assim batizada devido à crença de
que se localizava perto do polo antártico. Doze anos depois, após um
intenso combate, os portugueses conquistaram definitivamente a cidade do
Rio de Janeiro.
As forças portuguesas vitoriosas foram comandadas pelo governador-geral
Mem de Sá (1500-1572), que, como o padre José de Anchieta (1534-1597),
descreveu a colônia francesa como um ninho de hereges, composto
exclusivamente de seguidores da Reforma Protestante. Diziam ainda que
tinham sido encontrados livros sobre o protestantismo nas fortificações.
Dessa forma, o combate ganhava ares de luta contra a heresia reformada,
tornando-se meritório aos olhos de Deus e da comunidade católica. Mais
que uma disputa territorial, a expulsão dos franceses se tornava uma
guerra santa.
Esses relatos portugueses foram usados mais tarde pelo historiador
Francisco Adolfo Varnhagen (1816-1878) na elaboração de sua obra
História do Brasil, escrita no século XIX. A ideia de uma França
Antártica formada exclusivamente por protestantes foi confirmada pelo
autor e propagada entre diversos historiadores brasileiros. Mas as
narrativas francesas sobre o episódio mostram o contrário: a colônia
abrigava diferentes tendências religiosas, e essa variedade causara
conflitos internos que dividiram a comunidade. De fato, na Europa a
Reforma protestante revolucionava a experiência religiosa em diversas
terras e gerava grandes oposições. No âmbito francês, destacava-se a
liderança de João Calvino (1509-1564), exilado em Genebra, de onde
exercia grande influência, principalmente teológica, sendo suas
intervenções no campo político pouco significativas.
A versão dos derrotados diz que, em 1555, o monarca francês Henrique II
(1519-1559) concedeu ao experiente militar Nicolas Durand de Villegagnon
(1510-1572) a elevada quantia de dez mil libras tornesas para conduzir
uma esquadra da França ao Brasil. Nascido em família de nobreza recente,
Villegagnon tornou-se cavaleiro da Ordem de Malta, organização militar e
religiosa fundada no tempo das Cruzadas. Após uma longa ascensão
social, ocupou o posto de vice-almirante da Bretanha.
Os adversários protestantes de Villegagnon diriam mais tarde que o
cavaleiro tinha se convertido à Reforma e desejava fundar um refúgio no
Novo Mundo, onde seria possível “melhor servir a Deus”. De acordo com
essa ideia, Villegagnon teria aderido ao protestantismo e depois traído a
religião. Mas ao partir da Europa, sua companhia não deixava perceber
nenhuma predileção religiosa. A bordo estavam o piloto adepto da Reforma
Nicolas Barré (? –1562) e o cosmógrafo franciscano André Thévet
(1504-1592).
Após meses de viagem, em março de 1556 os navios franceses comandados
por Villegagnon chegaram à Guanabara. Os viajantes ocuparam a ilha de
Serigipe, iniciando a construção do Forte Coligny, assim batizado em
homenagem a Gaspar de Coligny (1519-1572), almirante de França e um dos
incentivadores do projeto.
Segundo os primeiros relatos de Thévet e Barré, publicados em1557 na
Europa, o convívio entre católicos e protestantes foi inicialmente
pacífico. A relação amistosa com os índios tupinambás também foi
fundamental para a consolidação da colônia. Os nativos forneciam
alimentos e água aos franceses, pois a ilha de Serigipe, escolhida por
razões puramente militares, não possuía fonte de água doce. Em troca, os
indígenas obtinham mercadorias europeias, especialmente instrumentos de
ferro.
A comunicação com os índios era feita pelos trugimães, franceses que
conviviam com os indígenas havia anos, tendo aprendido sua língua e seus
hábitos. Mas em pouco tempo esses intérpretes entrariam em conflito com
os novos colonos. Villegagnon exigiu que todos os homens que desejassem
manter relações sexuais com as índias se casassem com elas. Os
trugimães, que viviam na terra em contato com as mulheres nativas havia
muito tempo, foram contra. Fez-se um complô contra os chefes da colônia
para matá-los, mas o plano foi descoberto a tempo, permitindo a captura
dos organizadores do motim e a morte dos líderes.
Os meses seguintes de 1556 transcorreram sem sobressaltos, mas em março
de 1557, uma comitiva de adeptos da Reforma, liderada pelo nobre Du Pont
e por dois pastores, Pierre Richer e Guillaume Chartier, chegou à
Guanabara vinda de Genebra. Eram convidados do almirante francês Gaspar
de Coligny, que se convertera ao protestantismo. A iniciativa foi
orientada pelo líder reformador João Calvino. Entre os recém-chegados
também estava o huguenote Jean de Léry (1534-1611), que, após retornar à
Europa, escreveu o relato História de uma viagem feita à Terra do
Brasil, uma das mais importantes obras sobre a França Antártica.
Inicialmente, o relacionamento entre o chefe da colônia e a comitiva de
Du Pont foi amistoso, segundo as cartas de Villegagnon e dos pastores a
Calvino. Porém, menos de um mês após a chegada dos protestantes, surgiu
um conflito relacionado à celebração do culto de Páscoa. Para os
católicos, o pão se transformava realmente no corpo de Cristo durante o
ritual, enquanto para os protestantes seria apenas um símbolo da
presença do filho de Deus. Para Villegagnon, a comunhão era uma das
bases do poder real, e a negação da presença do corpo de Cristo abalava
as bases em que a monarquia se apoiava.
Num primeiro momento, os grupos em litígio tentaram chegar a um acordo. O
pastor Guillaume Chartier foi enviado de volta à Europa para consultar
Calvino sobre o tema. Mas os debates não se resolviam, e a divergência
religiosa foi tamanha que no fim de 1557 a comitiva de Genebra retornou à
Europa. Contudo, o navio começou a afundar quando estava ainda na
altura de Cabo Frio, e cinco genebrinos resolveram voltar de bote. Os
náufragos foram recebidos por Villegagnon, que executou três por
afogamento poucos dias depois. Segundo Jean Crespin (1523-1572), célebre
editor militante reformado, autor de importante martirológio
protestante, os três eram mártires da causa reformada, condenados por
razões religiosas. Mas para o cavaleiro de Malta, os ditos “mártires”
teriam provocado tumultos, incitando os colonos à insurreição e, dessa
forma, sua condenação se dava exclusivamente por motivos civis.
O resto da comitiva seguiu para a Europa num navio em condições
precárias. Segundo Jean de Léry, a viagem se prolongou além do esperado e
os viajantes foram obrigados a devorar os macacos e papagaios que
transportavam e, em seguida, os ratos. Por fim, hidrataram e comeram
seus utensílios de couro. Muitos morreram de fome ao longo da tormentosa
travessia. De acordo com Léry, apenas a piedade cristã os impedira de
praticar a antropofagia.
Finalmente, chegando à Europa, os huguenotes iniciaram uma campanha
difamatória contra Villegagnon, acusando-o de ter se convertido à
Reforma e depois traído a causa. Em 1559, o cavaleiro de Malta retornou à
França para se defender das acusações e publicou um livro discutindo a
teologia de Calvino, convidando o reformador para um debate, que jamais
aconteceu. A fidelidade à ortodoxia católica demonstrada por Villegagnon
provocou uma guerra de panfletos, com muitas respostas e réplicas por
parte dos protestantes. Ele acabou reconquistando a confiança do jovem
rei Francisco II (1544-1560), e preparava outra expedição rumo ao Novo
Mundo, em 1561, quando chegou a notícia da queda do Forte Coligny, na
França Antártica, tomado pelos portugueses em 1560. Villegagnon
abandonaria este plano, tratando apenas de obter uma indenização da
Coroa portuguesa. E ganhou, apesar das pretensões lusitanas de
legitimidade do tratado de Tordesilhas.
Os franceses ainda persistiram na Guanabara até 1567, quando seriam
definitivamente expulsos por Mem de Sá. Embora tenham construído duas
fortalezas nesse período, Paranapuã e Uruçumirim, a colônia jamais
voltou a ser o que fora antes.
Pouco se sabe do que se passou nesses últimos sete anos, mas os relatos
portugueses apontam que nas fortificações havia muito mais indígenas que
franceses.
Na década de 1570, o debate foi retomado na França, quando André Thévet
publicou a Cosmografia Universal, que acusava os protestantes pela perda
da França Antártica. Respondendo a essa obra, Jean de Léry escreveu sua
História de uma viagem feita à terra do Brasil, em que defenderia os
huguenotes dessa acusação, atribuindo o verdadeiro fim da colônia às
atitudes de Villegagnon, traidor da confiança de Coligny.
Independentemente da disputa de versões, as obras de Thévet e Léry
constituem preciosos registros sobre o Brasil da época. Embora a
experiência da França Antártica tenha sido temporária, legou essas
fontes de pesquisa e, mais ainda, a “cidade maravilhosa” de São
Sebastião do Rio de Janeiro. Já dizia Jean de Léry que não havia no
mundo paisagem mais bela que a Baía de Guanabara. Este talvez seja um
dos raros fatos incontestáveis sobre o episódio da França Antártica.
Luiz Fabiano de Freitas Tavares é professor Universidade Castelo Branco e
da Rede Municipal do Rio de janeiro, Autor do Livro entre Genebra e a
Guanabara: A discussão política huguenote sobre a França Antártica
(TopBooks, 2009).
O protestantismo de Calvino
Noventa e cinco teses contra os abusos da hierarquia eclesiástica
afixadas na porta da igreja de Wittenberg, Alemanha, em 1517. Este gesto
de denúncia, realizado por Martinho Lutero (1483-1546), geralmente é
considerado o início da Reforma Protestante. O monge agostiniano é
excomungado. Em resposta, a bula papal é queimada. Como um incêndio, as
novas ideias vão se propagando: católicos e reformados se confrontam,
sobretudo na Europa Central.
O francês João Calvino (1509-1564) adere ao
protestantismo, desenvolvendo uma linha particular que enfatiza a
predestinação, segundo a qual o homem já nasce escolhido por Deus para a
vida eterna ou para a condenação. Do ponto de vista moral, o calvinismo
é marcado por um extremo rigor, visível na própria cidade de Genebra,
governada por Calvino e seus seguidores, onde danças e jogos são
proibidos, e é imposta uma rígida disciplina a todos os habitantes. A
doutrina do reformador genebrino se difunde principalmente nos Países
Baixos, na Escócia, na Inglaterra (dando origem a duas correntes: os
presbiterianos, mais moderados, e os puritanos, mais radicais) e na
França, onde os calvinistas recebem o nome de huguenotes.