sexta-feira, 22 de março de 2013








Franceses se instalaram na Guanabara em 1555, mas diferenças religiosas enfraqueceram a empreitada
Luiz Fabiano de Freitas Tavares

Onde estava, afinal, o testamento no qual o “Pai Adão” legara o mundo às Coroas portuguesa e espanhola? Quem fez esta pergunta foi Francisco I (1494-1547), rei da França, que desafiou o Tratado de Tordesilhas, firmado em 1494 por Portugal e Espanha para assegurar o domínio ibérico sobre as terras do Novo Mundo. O monarca respondeu ao Tratado com uma provocação, declarando a política de mare liberum (em latim, “mar livre”). Como resultado, navios de comerciantes franceses percorreram o litoral brasileiro em meados do século XVI, criando bases de comércio ao longo da costa. Uma delas deu origem à colônia França Antártica, em 1555, situada na Baía de Guanabara, e assim batizada devido à crença de que se localizava perto do polo antártico. Doze anos depois, após um intenso combate, os portugueses conquistaram definitivamente a cidade do Rio de Janeiro.

As forças portuguesas vitoriosas foram comandadas pelo governador-geral Mem de Sá (1500-1572), que, como o padre José de Anchieta (1534-1597), descreveu a colônia francesa como um ninho de hereges, composto exclusivamente de seguidores da Reforma Protestante. Diziam ainda que tinham sido encontrados livros sobre o protestantismo nas fortificações. Dessa forma, o combate ganhava ares de luta contra a heresia reformada, tornando-se meritório aos olhos de Deus e da comunidade católica. Mais que uma disputa territorial, a expulsão dos franceses se tornava uma guerra santa.

Esses relatos portugueses foram usados mais tarde pelo historiador Francisco Adolfo Varnhagen (1816-1878) na elaboração de sua obra História do Brasil, escrita no século XIX. A ideia de uma França Antártica formada exclusivamente por protestantes foi confirmada pelo autor e propagada entre diversos historiadores brasileiros. Mas as narrativas francesas sobre o episódio mostram o contrário: a colônia abrigava diferentes tendências religiosas, e essa variedade causara conflitos internos que dividiram a comunidade. De fato, na Europa a Reforma protestante revolucionava a experiência religiosa em diversas terras e gerava grandes oposições. No âmbito francês, destacava-se a liderança de João Calvino (1509-1564), exilado em Genebra, de onde exercia grande influência, principalmente teológica, sendo suas intervenções no campo político pouco significativas.

A versão dos derrotados diz que, em 1555, o monarca francês Henrique II (1519-1559) concedeu ao experiente militar Nicolas Durand de Villegagnon (1510-1572) a elevada quantia de dez mil libras tornesas para conduzir uma esquadra da França ao Brasil. Nascido em família de nobreza recente, Villegagnon tornou-se cavaleiro da Ordem de Malta, organização militar e religiosa fundada no tempo das Cruzadas. Após uma longa ascensão social, ocupou o posto de vice-almirante da Bretanha. 

Os adversários protestantes de Villegagnon diriam mais tarde que o cavaleiro tinha se convertido à Reforma e desejava fundar um refúgio no Novo Mundo, onde seria possível “melhor servir a Deus”. De acordo com essa ideia, Villegagnon teria aderido ao protestantismo e depois traído a religião. Mas ao partir da Europa, sua companhia não deixava perceber nenhuma predileção religiosa. A bordo estavam o piloto adepto da Reforma Nicolas Barré (? –1562) e o cosmógrafo franciscano André Thévet (1504-1592). 

Após meses de viagem, em março de 1556 os navios franceses comandados por Villegagnon chegaram à Guanabara. Os viajantes ocuparam a ilha de Serigipe, iniciando a construção do Forte Coligny, assim batizado em homenagem a Gaspar de Coligny (1519-1572), almirante de França e um dos incentivadores do projeto. 

Segundo os primeiros relatos de Thévet e Barré, publicados em1557 na Europa, o convívio entre católicos e protestantes foi inicialmente pacífico. A relação amistosa com os índios tupinambás também foi fundamental para a consolidação da colônia. Os nativos forneciam alimentos e água aos franceses, pois a ilha de Serigipe, escolhida por razões puramente militares, não possuía fonte de água doce. Em troca, os indígenas obtinham mercadorias europeias, especialmente instrumentos de ferro. 

A comunicação com os índios era feita pelos trugimães, franceses que conviviam com os indígenas havia anos, tendo aprendido sua língua e seus hábitos. Mas em pouco tempo esses intérpretes entrariam em conflito com os novos colonos. Villegagnon exigiu que todos os homens que desejassem manter relações sexuais com as índias se casassem com elas. Os trugimães, que viviam na terra em contato com as mulheres nativas havia muito tempo, foram contra. Fez-se um complô contra os chefes da colônia para matá-los, mas o plano foi descoberto a tempo, permitindo a captura dos organizadores do motim e a morte dos líderes.

Os meses seguintes de 1556 transcorreram sem sobressaltos, mas em março de 1557, uma comitiva de adeptos da Reforma, liderada pelo nobre Du Pont e por dois pastores, Pierre Richer e Guillaume Chartier, chegou à Guanabara vinda de Genebra. Eram convidados do almirante francês Gaspar de Coligny, que se convertera ao protestantismo. A iniciativa foi orientada pelo líder reformador João Calvino. Entre os recém-chegados também estava o huguenote Jean de Léry (1534-1611), que, após retornar à Europa, escreveu o relato História de uma viagem feita à Terra do Brasil, uma das mais importantes obras sobre a França Antártica. 

Inicialmente, o relacionamento entre o chefe da colônia e a comitiva de Du Pont foi amistoso, segundo as cartas de Villegagnon e dos pastores a Calvino. Porém, menos de um mês após a chegada dos protestantes, surgiu um conflito relacionado à celebração do culto de Páscoa. Para os católicos, o pão se transformava realmente no corpo de Cristo durante o ritual, enquanto para os protestantes seria apenas um símbolo da presença do filho de Deus. Para Villegagnon, a comunhão era uma das bases do poder real, e a negação da presença do corpo de Cristo abalava as bases em que a monarquia se apoiava.

Num primeiro momento, os grupos em litígio tentaram chegar a um acordo. O pastor Guillaume Chartier foi enviado de volta à Europa para consultar Calvino sobre o tema. Mas os debates não se resolviam, e a divergência religiosa foi tamanha que no fim de 1557 a comitiva de Genebra retornou à Europa. Contudo, o navio começou a afundar quando estava ainda na altura de Cabo Frio, e cinco genebrinos resolveram voltar de bote. Os náufragos foram recebidos por Villegagnon, que executou três por afogamento poucos dias depois. Segundo Jean Crespin (1523-1572), célebre editor militante reformado, autor de importante martirológio protestante, os três eram mártires da causa reformada, condenados por razões religiosas. Mas para o cavaleiro de Malta, os ditos “mártires” teriam provocado tumultos, incitando os colonos à insurreição e, dessa forma, sua condenação se dava exclusivamente por motivos civis.

O resto da comitiva seguiu para a Europa num navio em condições precárias. Segundo Jean de Léry, a viagem se prolongou além do esperado e os viajantes foram obrigados a devorar os macacos e papagaios que transportavam e, em seguida, os ratos. Por fim, hidrataram e comeram seus utensílios de couro. Muitos morreram de fome ao longo da tormentosa travessia. De acordo com Léry, apenas a piedade cristã os impedira de praticar a antropofagia.

Finalmente, chegando à Europa, os huguenotes iniciaram uma campanha difamatória contra Villegagnon, acusando-o de ter se convertido à Reforma e depois traído a causa. Em 1559, o cavaleiro de Malta retornou à França para se defender das acusações e publicou um livro discutindo a teologia de Calvino, convidando o reformador para um debate, que jamais aconteceu. A fidelidade à ortodoxia católica demonstrada por Villegagnon provocou uma guerra de panfletos, com muitas respostas e réplicas por parte dos protestantes. Ele acabou reconquistando a confiança do jovem rei Francisco II (1544-1560), e preparava outra expedição rumo ao Novo Mundo, em 1561, quando chegou a notícia da queda do Forte Coligny, na França Antártica, tomado pelos portugueses em 1560. Villegagnon abandonaria este plano, tratando apenas de obter uma indenização da Coroa portuguesa. E ganhou, apesar das pretensões lusitanas de legitimidade do tratado de Tordesilhas.

Os franceses ainda persistiram na Guanabara até 1567, quando seriam definitivamente expulsos por Mem de Sá. Embora tenham construído duas fortalezas nesse período, Paranapuã e Uruçumirim, a colônia jamais voltou a ser o que fora antes.

Pouco se sabe do que se passou nesses últimos sete anos, mas os relatos portugueses apontam que nas fortificações havia muito mais indígenas que franceses. 

Na década de 1570, o debate foi retomado na França, quando André Thévet publicou a Cosmografia Universal, que acusava os protestantes pela perda da França Antártica. Respondendo a essa obra, Jean de Léry escreveu sua História de uma viagem feita à terra do Brasil, em que defenderia os huguenotes dessa acusação, atribuindo o verdadeiro fim da colônia às atitudes de Villegagnon, traidor da confiança de Coligny.

Independentemente da disputa de versões, as obras de Thévet e Léry constituem preciosos registros sobre o Brasil da época. Embora a experiência da França Antártica tenha sido temporária, legou essas fontes de pesquisa e, mais ainda, a “cidade maravilhosa” de São Sebastião do Rio de Janeiro. Já dizia Jean de Léry que não havia no mundo paisagem mais bela que a Baía de Guanabara. Este talvez seja um dos raros fatos incontestáveis sobre o episódio da França Antártica. 

Luiz Fabiano de Freitas Tavares é professor Universidade Castelo Branco e da Rede Municipal do Rio de janeiro, Autor do Livro entre Genebra e a Guanabara: A discussão política huguenote sobre a França Antártica (TopBooks, 2009).

O protestantismo de Calvino

Noventa e cinco teses contra os abusos da hierarquia eclesiástica afixadas na porta da igreja de Wittenberg, Alemanha, em 1517. Este gesto de denúncia, realizado por Martinho Lutero (1483-1546), geralmente é considerado o início da Reforma Protestante. O monge agostiniano é excomungado. Em resposta, a bula papal é queimada. Como um incêndio, as novas ideias vão se propagando: católicos e reformados se confrontam, sobretudo na Europa Central.

O francês João Calvino (1509-1564) adere ao protestantismo, desenvolvendo uma linha particular que enfatiza a predestinação, segundo a qual o homem já nasce escolhido por Deus para a vida eterna ou para a condenação. Do ponto de vista moral, o calvinismo é marcado por um extremo rigor, visível na própria cidade de Genebra, governada por Calvino e seus seguidores, onde danças e jogos são proibidos, e é imposta uma rígida disciplina a todos os habitantes. A doutrina do reformador genebrino se difunde principalmente nos Países Baixos, na Escócia, na Inglaterra (dando origem a duas correntes: os presbiterianos, mais moderados, e os puritanos, mais radicais) e na França, onde os calvinistas recebem o nome de huguenotes. 

Fonte aqui

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Chegança




 

 

Chegança

Antonio Nóbrega

Sou Pataxó,
sou Xavante e Cariri,
Ianonami, sou Tupi
Guarani, sou Carajá.
Sou Pancararu,
Carijó, Tupinajé,
Potiguar, sou Caeté,
Ful-ni-o, Tupinambá.

Depois que os mares dividiram os continentes
quis ver terras diferentes.
Eu pensei: "vou procurar
um mundo novo,
lá depois do horizonte,
levo a rede balançante
pra no sol me espreguiçar".

eu atraquei
num porto muito seguro,
céu azul, paz e ar puro...
botei as pernas pro ar.
Logo sonhei
que estava no paraíso,
onde nem era preciso
dormir para se sonhar.

Mas de repente
me acordei com a surpresa:
uma esquadra portuguesa
veio na praia atracar.
De grande-nau,
um branco de barba escura,
vestindo uma armadura
me apontou pra me pegar.

E assustado
dei um pulo da rede,
pressenti a fome, a sede,
eu pensei: "vão me acabar".
me levantei de borduna já na mão.
Ai, senti no coração,
o Brasil vai começar.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

I JUCA PIRAMA

No século XIX, o poeta Gonçalves Dias, famoso pela Canção do Exílio, escreveu o poema I Juca Pirama, a história de um guerreiro tupi que para não deixar o pai velho, cego e cansado sem proteção, suplica aos chefes dos Timbiras que o deixem viver. Tal súplica demove os Timbiras da decisão e da tradição de devorar o guerreiro prisioneiro. Livre, o jovem guerreiro Tupi vai em busca do velho pai e quando o encontra, o ancião indígena quer saber como ele chegara até ali, sobretudo depois de ter sido feito prisioneiro. Desconcertado, o jovem tupi esconde do velho que suplicou pela vida em nome do amor que sente pelo pai. Diz apenas que o soltaram para cuidar dele. O velho tupi, cioso da honra da tribo decide ir com o filho até à aldeia dos Timbiras para agradecer o gesto de grandeza, mas também para salvar a honra do povo tupi. É nesse momento que o pai do guerreiro descobre a súplica do filho, suas lágrimas diante da morte, e se enche de vergonha. Abaixo, trechos do poema.

IV

Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi:
Sou filho das selvas,
Nas selvas cresci;
Guerreiros, descendo
Da tribo tupi.
Da tribo pujante,
Que agora anda errante
Por fado inconstante,
Guerreiros, nasci;
Sou bravo, sou forte,
Sou filho do Norte;
Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi.
Já vi cruas brigas,
De tribos imigas,
E as duras fadigas
Da guerra provei;
Nas ondas mendaces
Senti pelas faces
Os silvos fugaces
Dos ventos que amei.
Andei longes terras
Lidei cruas guerras,
Vaguei pelas serras
Dos vis Aimoréis;
Vi lutas de bravos,
Vi fortes - escravos!
De estranhos ignavos
Calcados aos pés.
E os campos talados,
E os arcos quebrados,
E os piagas coitados
Já sem maracás;
E os meigos cantores,
Servindo a senhores,
Que vinham traidores,
Com mostras de paz.
Aos golpes do imigo,
Meu último amigo,
Sem lar, sem abrigo
Caiu junto a mi!
Com plácido rosto,
Sereno e composto,
O acerbo desgosto
Comigo sofri.
Meu pai a meu lado
Já cego e quebrado,
De penas ralado,
Firmava-se em mi:
Nós ambos, mesquinhos,
Por ínvios caminhos,
Cobertos d’espinhos
Chegamos aqui!
O velho no entanto
Sofrendo já tanto
De fome e quebranto,
Só qu’ria morrer!
Não mais me contenho,
Nas matas me embrenho,
Das frechas que tenho
Me quero valer.
Então, forasteiro,
Caí prisioneiro
De um troço guerreiro
Com que me encontrei:
O cru dessossêgo
Do pai fraco e cego,
Enquanto não chego
Qual seja, - dizei!
Eu era o seu guia
Na noite sombria,
A só alegria
Que Deus lhe deixou:
Em mim se apoiava,
Em mim se firmava,
Em mim descansava,
Que filho lhe sou.
Ao velho coitado
De penas ralado,
Já cego e quebrado,
Que resta? - Morrer.
Enquanto descreve
O giro tão breve
Da vida que teve,
Deixai-me viver!
Não vil, não ignavo,
Mas forte, mas bravo,
Serei vosso escravo:
Aqui virei ter.
Guerreiros, não coro
Do pranto que choro:
Se a vida deploro,
Também sei morrer.

V

Soltai-o! - diz o chefe. Pasma a turba;
Os guerreiros murmuram: mal ouviram,
Nem pode nunca um chefe dar tal ordem!
Brada segunda vez com voz mais alta,
Afrouxam-se as prisões, a embira cede,
A custo, sim; mas cede: o estranho é salvo.
Timbira, diz o índio enternecido,
Solto apenas dos nós que o seguravam:
És um guerreiro ilustre, um grande chefe,
Tu que assim do meu mal te comoveste,
Nem sofres que, transposta a natureza,
Com olhos onde a luz já não cintila,
Chore a morte do filho o pai cansado,
Que somente por seu na voz conhece.
- És livre; parte.
- E voltarei.
- Debalde.
- Sim, voltarei, morto meu pai.
- Não voltes!
É bem feliz, se existe, em que não veja,
Que filho tem, qual chora: és livre; parte!
- Acaso tu supões que me acobardo,
Que receio morrer!
- És livre; parte!
- Ora não partirei; quero provar-te
Que um filho dos Tupis vive com honra,
E com honra maior, se acaso o vencem,
Da morte o passo glorioso afronta.
- Mentiste, que um Tupi não chora nunca,
E tu choraste!... parte; não queremos
Com carne vil enfraquecer os fortes.
Sobresteve o Tupi: - arfando em ondas
O rebater do coração se ouvia
Precípite. - Do rosto afogueado
Gélidas bagas de suor corriam:
Talvez que o assaltava um pensamento...
Já não... que na enlutada fantasia,
Um pesar, um martírio ao mesmo tempo,
Do velho pai a moribunda imagem
Quase bradar-lhe ouvia: - Ingrato! Ingrato!
Curvado o colo, taciturno e frio.
Espectro d’homem, penetrou no bosque!

VI

- Filho meu, onde estás?
- Ao vosso lado;
Aqui vos trago provisões; tomai-as,
As vossas forças restaurai perdidas,
E a caminho, e já!
- Tardaste muito!
Não era nado o sol, quando partiste,
E frouxo o seu calor já sinto agora!
- Sim demorei-me a divagar sem rumo,
Perdi-me nestas matas intrincadas,
Reaviei-me e tornei; mas urge o tempo;
Convém partir, e já!
- Que novos males
Nos resta de sofrer? - que novas dores,
Que outro fado pior Tupã nos guarda?
- As setas da aflição já se esgotaram,
Nem para novo golpe espaço intacto
Em nossos corpos resta.
- Mas tu tremes!
- Talvez do afã da caça....
- Oh filho caro!
Um quê misterioso aqui me fala,
Aqui no coração; piedosa fraude
Será por certo, que não mentes nunca!
Não conheces temor, e agora temes?
Vejo e sei: é Tupã que nos aflige,
E contra o seu querer não valem brios.
Partamos!... -
E com mão trêmula, incerta
Procura o filho, tacteando as trevas
Da sua noite lúgubre e medonha.
Sentindo o acre odor das frescas tintas,
Uma idéia fatal ocorreu-lhe à mente...
Do filho os membros gélidos apalpa,
E a dolorosa maciez das plumas
Conhece estremecendo: - foge, volta,
Encontra sob as mãos o duro crânio,
Despido então do natural ornato!...
Recua aflito e pávido, cobrindo
Às mãos ambas os olhos fulminados,
Como que teme ainda o triste velho
De ver, não mais cruel, porém mais clara,
Daquele exício grande a imagem viva
Ante os olhos do corpo afigurada.
Não era que a verdade conhecesse
Inteira e tão cruel qual tinha sido;
Mas que funesto azar correra o filho,
Ele o via; ele o tinha ali presente;
E era de repetir-se a cada instante.
A dor passada, a previsão futura
E o presente tão negro, ali os tinha;
Ali no coração se concentrava,
Era num ponto só, mas era a morte!
- Tu prisioneiro, tu?
- Vós o dissestes.
- Dos índios?
- Sim.
- De que nação?
- Timbiras.
- E a muçurana funeral rompeste,
Dos falsos manitôs quebrastes maça...
- Nada fiz... aqui estou.
- Nada! -
Emudecem;
Curto instante depois prossegue o velho:
- Tu és valente, bem o sei; confessa,
Fizeste-o, certo, ou já não fôras vivo!
- Nada fiz; mas souberam da existência
De um pobre velho, que em mim só vivia....
- E depois?...
- Eis-me aqui.
- Fica essa taba?
- Na direção do sol, quando transmonta.
- Longe?
- Não muito.
- Tens razão: partamos.
- E quereis ir?...
- Na direção do acaso.

VII

"Por amor de um triste velho,
Que ao termo fatal já chega,
Vós, guerreiros, concedestes
A vida a um prisioneiro.
Ação tão nobre vos honra,
Nem tão alta cortesia
Vi eu jamais praticada
Entre os Tupis, - e mas foram
Senhores em gentileza.
"Eu porém nunca vencido,
Nem nos combates por armas,
Nem por nobreza nos atos;
Aqui venho, e o filho trago.
Vós o dizeis prisioneiro,
Seja assim como dizeis;
Mandai vir a lenha, o fogo,
A maça do sacrifício
E a muçurana ligeira:
Em tudo o rito se cumpra!
E quando eu for só na terra,
Certo acharei entre os vossos,
Que tão gentis se revelam,
Alguém que meus passos guie;
Alguém, que vendo o meu peito
Coberto de cicatrizes,
Tomando a vez de meu filho,
De haver-me por se ufane!"
Mas o chefe dos Timbiras,
Os sobrolhos encrespando,
Ao velho Tupi guerreiro
Responde com tôrvo acento:
- Nada farei do que dizes:
É teu filho imbele e fraco!
Aviltaria o triunfo
Da mais guerreira das tribos
Derramar seu ignóbil sangue:
Ele chorou de cobarde;
Nós outros, fortes Timbiras,
Só de heróis fazemos pasto. -
Do velho Tupi guerreiro
A surda voz na garganta
Faz ouvir uns sons confusos,
Como os rugidos de um tigre,
Que pouco a pouco se assanha!

VIII

"Tu choraste em presença da morte?
Na presença de estranhos choraste?
Não descende o cobarde do forte;
Pois choraste, meu filho não és!
Possas tu, descendente maldito
De uma tribo de nobres guerreiros,
Implorando cruéis forasteiros,
Seres presa de via Aimorés.
"Possas tu, isolado na terra,
Sem arrimo e sem pátria vagando,
Rejeitado da morte na guerra,
Rejeitado dos homens na paz,
Ser das gentes o espectro execrado;
Não encontres amor nas mulheres,
Teus amigos, se amigos tiveres,
Tenham alma inconstante e falaz!
"Não encontres doçura no dia,
Nem as cores da aurora te ameiguem,
E entre as larvas da noite sombria
Nunca possas descanso gozar:
Não encontres um tronco, uma pedra,
Posta ao sol, posta às chuvas e aos ventos,
Padecendo os maiores tormentos,
Onde possas a fronte pousar.
"Que a teus passos a relva se torre;
Murchem prados, a flor desfaleça,
E o regato que límpido corre,
Mais te acenda o vesano furor;
Suas águas depressa se tornem,
Ao contacto dos lábios sedentos,
Lago impuro de vermes nojentos,
Donde fujas com asco e terror!
"Sempre o céu, como um teto incendido,
Creste e punja teus membros malditos
E oceano de pó denegrido
Seja a terra ao ignavo tupi!
Miserável, faminto, sedento,
Manitôs lhe não falem nos sonhos,
E do horror os espectros medonhos
Traga sempre o cobarde após si.
"Um amigo não tenhas piedoso
Que o teu corpo na terra embalsame,
Pondo em vaso d’argila cuidoso
Arco e frecha e tacape a teus pés!
Sê maldito, e sozinho na terra;
Pois que a tanta vileza chegaste,
Que em presença da morte choraste,
Tu, cobarde, meu filho não és."

Vale a pena ler o final...

América Portuguesa - imagens


segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Gabarito


Gabarito Prova Objetiva                                                           


3º TRIMESTRE 2012 (1º ANO)
APLICAÇÃO: 12/11/2012


HISTÓRIA
01
02
03
04
05
06
07
08
09
10
C
C
E
C
C
C
C
C
C
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11
12
13
14
15
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20
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quinta-feira, 20 de setembro de 2012

O RENASCIMENTO 1

Entre os séculos XIV e XVI, aconteceu na Europa um movimento que transformou a arte (arquitetura, pintura e escultura); a cultura (o antropocentismo substituindo o teocentrismo) e a ciência. Esse movimento que nasceu nas cidades que enriqueciam com o comércio e que tinha na burguesia o incentivo para o seu desenvolvimento, recebeu o nome de Renascimento.

A origem do termo renascimento, ou renascença, revela a maneira como os artistas e os humanistas da Idade Moderna viam o período medieval. Para esses artistas e intelectuais, a Idade Média havia sido um período de obscurantismo cultural, cheio de preconceitos e superstições, uma "Idade das Trevas!" 

A Arte o Saber que mereciam respeito e reconhecimento eram aqueles que os antigos gregos e romanos (a cultura clássica) haviam produzido. Portanto, cabia a esses artistas fazer essa arte e esse saber renascerem a partir dos alicerces culturais deixados pela civilização clássica.

O CONTEXTO

O Renascimento teve origem na península itálica, e a partir dessa região, expandiu-se para outras partes da Europa, como França, Inglaterra, Holanda, Alemanha, Portugal e Espanha. As razões para que esse movimento que transformou a arte, a cultura e a ciência no Ocidente tenha começado na Itália são as seguintes:

1 - O enriquecimento das cidades italianas, especialmente Veneza, Gênova, Milão e Florença, com uma burguesia disposta a financiar os artistas e a reforçar novos valores, como a riqueza, o dinheiro, o individualismo e o antropocentismo.

2 - A presença no território da Itália de construções que remetiam à época de apogeu da civilização romana e a existência de obras clássicas, como a dos filósofos gregos que chegaram à península trazidas por sábis bizantinos que haviam fugido de Constantinopla diante do cerco dos turcos otomanos.

3 - A rivalidade entre as cidades italianas que buscavam superar umas às outras tanto no comércio quanto na prosperidade. Essa rivalidade se estenderia também no campo da Arte e das Ciências, quando os governantes dessas cidades passaram a fincanciar e a proteger os seus artistas com o objetivo de sobrepor-se também nesse quesito, às rivais.

AS PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DO RENASCIMENTO

A Valorização da Cultura Clássica

Os artistas do Renascimento e os humanistas tiveram pela cultura greco-romana uma admiração especial. Pintores, escultores, filósofos, teóricos, enfim, os chamados sábios beberão nas fontes clássicas para produzirem suas obras. Não queriam imitar os antigos gregos e os antigos romanos, mas terão neles e nas obras que eles deixaram, a inspiração para as suas próprias produções artísticas e obras filosóficas.

O Antropocentrismo.

Eis aqui uma das grandes marcas do renascimento e do humanismo. O antropocentrismo foi mais do que colocar o homem (ser humano) no centro das preocupações dos renascentistas e humanistas. Foi uma ruptura com o período medieval, marcado pelo teocentrismo.

O homem do Renascimento continua se preocupando com a sua salvação e não abandona sua fé cristã. Contudo, começa a sentir curiosidade por entender a natureza, os fenômenos sociais, a concepção da arte, o mundo à sua volta sem recorrer às escrituras ou à autoridade da Igreja. Além disso, ao contrário do teocentismo, o antropocentrismo, por definição, acredita nas qualidades do gênio humano. O homem é capaz de realizar coisas maravilhosas porque possui, como criatura de Deus, a centelha divina.

O Naturalismo

Os artistas do Renascimento procuravam em suas pinturas e esculturas ser o mais fiel possível à realidade. As figuras humanas nos quadros e nas pedras apresentam uma semelhança notável com o mundo natural. além disso, a perspectiva - que dá ideia de profundidade numa pintura - e o movimento serão marcas da arte renascentista.

Na ciência, o naturalismo aguçou a curiosidade de cientistas que começaram a investigar a natureza e os seus fenômenos sem reccorer às escrituras ou à autoridade da Igreja.

O Individualismo.

Como consequência do naturalismo, o homem do Renascimento procura diferenciar-se pelo seu talento e pelo seu conhecimento dos demais. O artista do Renascimento defende a ideia de que cada ser humano é único e que precisa ser reconhecido por sua individualidade no mundo. Por isso, a partir do Renascimento, as obras-primas na pintura, na literatura, na arquitetura, na filosofia e nas descobertas científicas estarão ligadas definitivamente a um nome.

O Racionalismo.

Outra marca impostantíssima do Renascimento. A valorização da razão deve ser entendida como uma nova forma de explicar o mundo e de conceber a arte. Nas ciências, a busca pela verdade vai se concentrar na observação da natureza, nos conhecimentos matemáticos, na reflexão dos dados obtidos dos fenômenos observados. A religião, a autoridade da Igreja, as escrituras, para o homem do renascimento deixarvam de ser a fonte de saber e conhecimento. A Fé, perde para a Razão, nos assuntos relacionados à Ciência, à Política, à Filosofia.


 

 

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

A Idade Moderna

Tradicionalmente, o período histórico conhecido como Idade Moderna se estende do século XV (1401) ao século XVIII(1800). Todos os eventos compreendidos entre essas duas datas e que se relacionam com a história das sociedades da Europa, especialmente de sua porção ocidental, são eventos da Idade Moderna.

Lembre-se que essa divisão da história em períodos (Idades) é arbitrária, e não pode ser considerada de forma absoluta. Seria mais adequado entender que a Baixa Idade Média foi antes uma fase de transição para a Idade Moderna, isto é, muitos elementos que vão caracterizar a modernidade tiveram sua origem ou o seu início nos séculos finais da Idade Média.

Entre os eventos da Idade Moderna que podemos destacar, estão:

O Renascimento

A Reforma Protestante.

A Formação das Monarquias Nacionais.

As Grandes Navegações

A olonização da América

O Capitalismo Comercial.

O RENASCIMENTO

Movimento artístico, cultural e científico que provocou uma verdadeira revolução cultural na Europa ocidental.

A REFORMA PROTESTANTE

O monge alemão Martinho Lutero, a partir de 1517, com suas 95 Teses, foi um dos responsáveis pela divisão da Igreja Católica Apostólica Romana. A partir daí, a cristandade do ocidente vai se dividir entre católicos e protestantes.

A FORMAÇÃO DAS MONARQUIAS NACIONAIS.

No período moderno, os reis foram pouco a pouco centralizando o poder político em sua pessoa. Dessa forma, as antigas atribuições da nobreza feudal vão sendo absorvidas pelo rei e seus funcionários. O ápice desse poder real vai ficar conhecido como absolutismo monárquico.

AS GRANDES NAVEGAÇÕES

A partir do século XV, a fim de escapar ao monopólio que os comerciantes de Veneza e Gênova impunham à venda das especiarias e à navegação no mar medieterrâneo, os portugueses se lançaram ao mar em busca de uma rota alternativa para o oriente. Essa busca dá início ao período das grandes viagens marítimas que vão proporcionar aos europeus o encontro com outras culturas, a ampliação radical do comércio mundial e a substituição do mar mediterrâneo pelo oceano atlântico como principal eixo de comércio na Idade Moderna.

A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA

Existem, atualmente na América, quatro línguas principais: o inglês, o espanhol, o português e o francês. Todas essas línguas são europeias e se hoje são as línguas mais faladas na América, deve-se ao fato de o nosso continente ter sido colonizado por ingleses, espanhóis, portugueses e franceses. Além disso, a América é o continente com a maior quantidade de cristãos (católicos e protestantes) do mundo. A religião cristã, portanto, foi outra herança da colonização europeia na América.

O CAPITALISMO COMERCIAL

Alguns historiadores (marxistas), implicam com  o termo capitalismo comercial. Preferem chamar a fase de ampliação do comércio em escala global, mas tendo como base a mão-de-obra, de acumulação primitiva de capital.